Relatos de alguns causos vividos, presenciados, ouvidos, interpretados ou simplesmente inventados mesmo por Marcos Xavier Vicente, o popular Marcão, jornalista e mal humorado por natureza - característica mais do que imprescíndivel para um grande colunista de revista de circulação nacional. Alguém aí quer me contratar por um alto salário?
31.1.05
Rapaziada, esse texto é velho e foi originalmente publicado no De Primeira e no Abacaxi Atômico, sites para os quais colaboro - nos últimos tempos, infelizmente, nem tanto. Mas, vá lá, é bonzinho... Só pra não deixar a coisa tanto tempo no ostracismo
Abraços
Marcão
De bola e literatura
Vinte pras dez da noite. Olho pro relógio e percebo que hoje o dia de trabalho foi longo. Nem tempo pra conferir as horas tive. Por isso me surpreendo pelo adiantado da hora. Tudo bem: agora meu destino é minha casa, minha cama, minha tv, meu travesseiro... Antes, um detalhe importantíssimo - a seleção de o que vou ler no ônibus no longo trajeto até chegar em casa.
A Folha de São Paulo não vai dar. O maldito entregador de jornal ao invés de arremessar a Folha pra dentro do meu quintal acabou se confundido e deixando o Valor Econômico na minha calçada. Como notícias econômicas não são lá muito atrativas para se ler em trânsito, desisto. A Gazeta do Povo já li de manhã, bem como os outros jornais daqui de Curitiba. Pra piorar não tenho nenhum livro na bolsa. Enfim, vou ter que apelar pra Época que o Samuel deixou dando mole em cima da mesa dele. Dito e feito - amanhã eu devolvo. Juro!
No fim da revista, chego a um texto sobre um escritor da nova geração da literatura americana. Um tal de James Frey, que segundo o próprio título da matéria dizia ("Ríspido, metido e talentoso"), me parece ser um belo de um pedante. Aos 33 anos, o cara diz que pretende ser o maior escritor de sua geração. Até aí, nariz empinado suficientemente possível de se agüentar.
Mas eis que na última pergunta da repórter, o cara solta essa: "Quero ser diferente de tudo o que já foi feito antes, e acho que nunca ninguém escreveu como eu. Mas é claro que tenho semelhanças com outros escritores americanos, como Hemingway, Bukowski ou Jack Kerouac. Dou continuidade à tradição deles". Vá se foder! Tudo bem, os três tinham em comum a vida errante e o texto direto, seco. Mas daí a dizer que se é uma mescla dos três. Muita petulância pra uma única pessoa!!
Fazendo o comparativo do nosso geniozinho e tranportando a querela pra esfera da bola, tentei me lembrar de alguém que pudesse aglutinar três características tão ímpares. Simplesmente não existe.
Não há nenhum jogador de futebol que consiga ao mesmo tempo ter o ímpeto do garanhão e encrequeiro Hemingway, a incoseqüência e ternura do velho Buk e a libertinagem e o poder visionário do andarilho maluco Kerouac. Por outro lado, pensei, mas cada pode muito bem ter seu similar dentro do campo.
A partir desse ponto, resolvi relecionar meus onze escritores preferidos - um time completo - com seus onze similares dentro de campo. Tentei encontrar um equivalente a Pelé, mas não deu. Pelo menos até se descobrir quem é o autor da Bíblia...
Ernest Hemingway - De caráter explosivo, porém de um talento fora do comum, dentro de campo o autor de "Adeus às Armas" e "Por Quem os Sinos Dobram" poderia muito bem ser comparado a Rivelino. Dois gênios difíceis de lidar, porém companheiros e competentíssimos.
J.D. Salinger - Assim como o autor do clássico adolescente "O Apanhador no Campo de Centeio", Tostão também teve um longo período de isolamento após largar o futebol - desde que optou pela reclusão voluntária numa fazenda do interior dos Estados Unidos, ainda na década de 60, o "pai" de Holden Caulfield nunca mais escreveu. Para nossa sorte, Tostão resolveu aparecer de volta e hoje nos passa seus conhecimentos através de excelentes comentários. Guardadas as devidas proporções, tão bons quanto os textos de Salinger: cheio de humanidade e embasamento, mas verdadeiros tapas na cara.
Gabriel García Marquez - Com um texto redondo e preciso, em que a imaginação vai longe, mas sem se perder em devaneios inúteis, a literatura de Marquez lembra o futebol de Zico. Clássico, simples, eficiente, porém mágico. Assim como o autor colombiano, o Galinho conseguia transformar o simples em fantástico.
Charles Bukowsky - Esse não há como não remeter a Garrincha. Não só pela simples companhia do álcool, que ambos tanto adoravam. Também pelo caráter fanfarrão e o estilo de vida desregrada. Dos dois lados da moeda, sujeitos que não ligavam pras coisas do dia-a-dia, como contas a pagar ou compromissos profissionais. O que interessava, para ambos, era a diversão pura e simples, seja caçando passarinhos com os amigos em Pau Grande, seja torrando toda a grana do mês nas pistas de cavalos de Los Angeles. Além desses fatores, há ainda a sexualidade. Garrincha, uma máquina de fazer sexo. Bukowsky, também conhecido como o "velho safado", uma máquina de escrever indecências.
John Steinbeck – Assim como o escritor americano conseguia jogar pitadas de humor em seus textos referentes à fase negra da história norte-americana, no período de depressão, após o crack da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, Toninho Cerezo amenizava um pouco as dores da derrota em campo, como na dolorida queda em 82. Da desgraça, os dois conseguem encontrar o bom-humor.
John dos Passos – Defensor dos direitos sociais e crítico do american way of life, conforme muito bem demonstra a trilogia “USA”, esse americano de origem portuguesa é o Sócrates da literatura. Polêmico e ferrenho defensor de seus ideais. Assim como o doutor, líder da “Democracia Corintiana”. Para os dois, só há um lado: a esquerda.
Nick Horby – Talvez pela idade, talvez pelo gosto pela cultura pop, o autor de “Alta Fidelidade” e “Grande Garoto” está para a literatura assim como Casagrande está para o futebol. E mais: um já rondou a área do outro. Enquanto Casão é constantemente visto em shows de rock e tem uma coluna esportiva de caráter, digamos, um pouco menos rançoso e mais conceitual do que as similares escritas por ex-jogadores, Horby é um doente por futebol. Na relidade, doente pelo Arsenal, conforme demonstra o livro “Febre de Bola”.
Érico Veríssmo – Não apenas pelo fato de serem conterrâneos – está certo, bem sei que Falcão é catarinense de nascença. Porém, sem a menor sombra de dúvida, gaúcho de alma. E assim como o pai do Luís Fernando, colorado até o último fio de cabelo. Mas as semelhanças vão além. Em ambos está presente o estilo, a elegância, o respeito ao próximo – no caso de Falcão, aos adversários, que nunca receberam uma botinada do melhor volante do Brasil de todos os tempos; no de Érico, na sua humildade, expressa através dos sentimentos humanistas em seus textos.
Jack London – Eis o errante, o incontrolável, o homem que não segue regras e nem recebe ordens. Tal qual o aventureiro autor de “Caninos Brancos” e “O Chamado da Selva”, Edmundo é incontrolável. Não à toa o chamam de Animal. Como London sempre comparava os sentimentos humanos aos comportamentos das feras selvagens, a relação cai muito bem.
Graciliano Ramos – Em ambos, o comportamento avesso ao do nordestino convencional. No lugar da espontaneidade, a introspecção. Assim como o alagoano Graciliano era fechadão e calado, o é também o pernambucano Rivaldo dentro de campo. Mesmo com tamanho silêncio, Rivaldo é capaz de fazer maravilhas com a bola nos pés. Tal qual Graciliano fez com a pena nas mãos ao escrever “Vidas Secas”, “Angústia”, “Memórias do Cárcere”...
Jack Kerouac – Essa comparação é muito mais pelo estilo de vida “não to nem aí”. Se por um lado o franco-canadense Kerouac optou por largar tudo e desbravar a América de dedo em riste pedindo carona, tudo muito bem narrado no maravilhoso “On The Road”, Marinho Chagas, lateral da Copa de 74, preferiu o sol acolhedor do Rio Grande do Norte, as dunas de Jenipabu para viver após deixar a bola.
Abraços
Marcão
De bola e literatura
Vinte pras dez da noite. Olho pro relógio e percebo que hoje o dia de trabalho foi longo. Nem tempo pra conferir as horas tive. Por isso me surpreendo pelo adiantado da hora. Tudo bem: agora meu destino é minha casa, minha cama, minha tv, meu travesseiro... Antes, um detalhe importantíssimo - a seleção de o que vou ler no ônibus no longo trajeto até chegar em casa.
A Folha de São Paulo não vai dar. O maldito entregador de jornal ao invés de arremessar a Folha pra dentro do meu quintal acabou se confundido e deixando o Valor Econômico na minha calçada. Como notícias econômicas não são lá muito atrativas para se ler em trânsito, desisto. A Gazeta do Povo já li de manhã, bem como os outros jornais daqui de Curitiba. Pra piorar não tenho nenhum livro na bolsa. Enfim, vou ter que apelar pra Época que o Samuel deixou dando mole em cima da mesa dele. Dito e feito - amanhã eu devolvo. Juro!
No fim da revista, chego a um texto sobre um escritor da nova geração da literatura americana. Um tal de James Frey, que segundo o próprio título da matéria dizia ("Ríspido, metido e talentoso"), me parece ser um belo de um pedante. Aos 33 anos, o cara diz que pretende ser o maior escritor de sua geração. Até aí, nariz empinado suficientemente possível de se agüentar.
Mas eis que na última pergunta da repórter, o cara solta essa: "Quero ser diferente de tudo o que já foi feito antes, e acho que nunca ninguém escreveu como eu. Mas é claro que tenho semelhanças com outros escritores americanos, como Hemingway, Bukowski ou Jack Kerouac. Dou continuidade à tradição deles". Vá se foder! Tudo bem, os três tinham em comum a vida errante e o texto direto, seco. Mas daí a dizer que se é uma mescla dos três. Muita petulância pra uma única pessoa!!
Fazendo o comparativo do nosso geniozinho e tranportando a querela pra esfera da bola, tentei me lembrar de alguém que pudesse aglutinar três características tão ímpares. Simplesmente não existe.
Não há nenhum jogador de futebol que consiga ao mesmo tempo ter o ímpeto do garanhão e encrequeiro Hemingway, a incoseqüência e ternura do velho Buk e a libertinagem e o poder visionário do andarilho maluco Kerouac. Por outro lado, pensei, mas cada pode muito bem ter seu similar dentro do campo.
A partir desse ponto, resolvi relecionar meus onze escritores preferidos - um time completo - com seus onze similares dentro de campo. Tentei encontrar um equivalente a Pelé, mas não deu. Pelo menos até se descobrir quem é o autor da Bíblia...
Ernest Hemingway - De caráter explosivo, porém de um talento fora do comum, dentro de campo o autor de "Adeus às Armas" e "Por Quem os Sinos Dobram" poderia muito bem ser comparado a Rivelino. Dois gênios difíceis de lidar, porém companheiros e competentíssimos.
J.D. Salinger - Assim como o autor do clássico adolescente "O Apanhador no Campo de Centeio", Tostão também teve um longo período de isolamento após largar o futebol - desde que optou pela reclusão voluntária numa fazenda do interior dos Estados Unidos, ainda na década de 60, o "pai" de Holden Caulfield nunca mais escreveu. Para nossa sorte, Tostão resolveu aparecer de volta e hoje nos passa seus conhecimentos através de excelentes comentários. Guardadas as devidas proporções, tão bons quanto os textos de Salinger: cheio de humanidade e embasamento, mas verdadeiros tapas na cara.
Gabriel García Marquez - Com um texto redondo e preciso, em que a imaginação vai longe, mas sem se perder em devaneios inúteis, a literatura de Marquez lembra o futebol de Zico. Clássico, simples, eficiente, porém mágico. Assim como o autor colombiano, o Galinho conseguia transformar o simples em fantástico.
Charles Bukowsky - Esse não há como não remeter a Garrincha. Não só pela simples companhia do álcool, que ambos tanto adoravam. Também pelo caráter fanfarrão e o estilo de vida desregrada. Dos dois lados da moeda, sujeitos que não ligavam pras coisas do dia-a-dia, como contas a pagar ou compromissos profissionais. O que interessava, para ambos, era a diversão pura e simples, seja caçando passarinhos com os amigos em Pau Grande, seja torrando toda a grana do mês nas pistas de cavalos de Los Angeles. Além desses fatores, há ainda a sexualidade. Garrincha, uma máquina de fazer sexo. Bukowsky, também conhecido como o "velho safado", uma máquina de escrever indecências.
John Steinbeck – Assim como o escritor americano conseguia jogar pitadas de humor em seus textos referentes à fase negra da história norte-americana, no período de depressão, após o crack da Bolsa de Nova Iorque, em 1929, Toninho Cerezo amenizava um pouco as dores da derrota em campo, como na dolorida queda em 82. Da desgraça, os dois conseguem encontrar o bom-humor.
John dos Passos – Defensor dos direitos sociais e crítico do american way of life, conforme muito bem demonstra a trilogia “USA”, esse americano de origem portuguesa é o Sócrates da literatura. Polêmico e ferrenho defensor de seus ideais. Assim como o doutor, líder da “Democracia Corintiana”. Para os dois, só há um lado: a esquerda.
Nick Horby – Talvez pela idade, talvez pelo gosto pela cultura pop, o autor de “Alta Fidelidade” e “Grande Garoto” está para a literatura assim como Casagrande está para o futebol. E mais: um já rondou a área do outro. Enquanto Casão é constantemente visto em shows de rock e tem uma coluna esportiva de caráter, digamos, um pouco menos rançoso e mais conceitual do que as similares escritas por ex-jogadores, Horby é um doente por futebol. Na relidade, doente pelo Arsenal, conforme demonstra o livro “Febre de Bola”.
Érico Veríssmo – Não apenas pelo fato de serem conterrâneos – está certo, bem sei que Falcão é catarinense de nascença. Porém, sem a menor sombra de dúvida, gaúcho de alma. E assim como o pai do Luís Fernando, colorado até o último fio de cabelo. Mas as semelhanças vão além. Em ambos está presente o estilo, a elegância, o respeito ao próximo – no caso de Falcão, aos adversários, que nunca receberam uma botinada do melhor volante do Brasil de todos os tempos; no de Érico, na sua humildade, expressa através dos sentimentos humanistas em seus textos.
Jack London – Eis o errante, o incontrolável, o homem que não segue regras e nem recebe ordens. Tal qual o aventureiro autor de “Caninos Brancos” e “O Chamado da Selva”, Edmundo é incontrolável. Não à toa o chamam de Animal. Como London sempre comparava os sentimentos humanos aos comportamentos das feras selvagens, a relação cai muito bem.
Graciliano Ramos – Em ambos, o comportamento avesso ao do nordestino convencional. No lugar da espontaneidade, a introspecção. Assim como o alagoano Graciliano era fechadão e calado, o é também o pernambucano Rivaldo dentro de campo. Mesmo com tamanho silêncio, Rivaldo é capaz de fazer maravilhas com a bola nos pés. Tal qual Graciliano fez com a pena nas mãos ao escrever “Vidas Secas”, “Angústia”, “Memórias do Cárcere”...
Jack Kerouac – Essa comparação é muito mais pelo estilo de vida “não to nem aí”. Se por um lado o franco-canadense Kerouac optou por largar tudo e desbravar a América de dedo em riste pedindo carona, tudo muito bem narrado no maravilhoso “On The Road”, Marinho Chagas, lateral da Copa de 74, preferiu o sol acolhedor do Rio Grande do Norte, as dunas de Jenipabu para viver após deixar a bola.
17.10.04
"Un brasilero intelichente"
Sábado à tarde, aquele sol, nada melhor do que um chopinho. Pena que a ressaca da sexta-feira não permitisse que eu me prolongasse na sessão de tulipas. O jeito foi ir embora mais cedo, tentar dormir um pouco no restante da tarde para ver se conseguiria reagrupar as energias para tentar algo à noite.
Saio do bar e exatamente do lado, uma oficina mecânica. Na verdade uma garagem, aonde mal cabia um carro. Na porta, um daqueles típicos mecânicos picaretas, do tipo que você fica até com medo de pedir um orçamento e mais ainda quando deixa o carro a seus cuidados. Aproximadamente 50 anos, baixinho, careca, com a roupa toda suja de graxa, um palito de dente no canto da boca e a cara de invocado.
Percebo a figura, que mantém os olhos pro movimento da rua, sem a menor intenção de focar a visão em algo. Quando, de repente, aquela cara carrancuda se transforma.
O sujeito dá um sorriso de ponta a ponta de cada orelha – percebo que falta a quarta-zaga na dentadura - e vem em minha direção. Olho para trás, pensando não ser comigo. Como não há ninguém além de mim na calçada, a coisa era comigo mesmo. “Boca, Boca!”, vem dizendo em minha direção, bastante entusiasta. Motivo: eu estava com a minha camisa do Boca Juniors e o baixinho invocado, que agora até parecia um tiozinho gente fina, era argentino.
O baixinho chega, me dá uns tapas nas costas, e começa a falar com seu portunhol. “El más grande del mundo, el más grande!”. Fico meio sem jeito – o pessoal do bar, que é divisa de parede com a oficina, começa a olhar estranho para aquilo. Continuo sem entender muito.
O argentino começa a fazer um monte de elogios a mim. Diz que sou um cara inteligente, por ter escolhido o maior clube do mundo. “El primero brasilero intelichente que conozco”, diz. Penso em começar a velha discussão futebolística entre Brasil e Argentina, Maradona e Pelé, mas é melhor deixar pra lá.
Não torço para o Boca Juniors. Apenas comprei a camisa, que na verdade é a de treino, amarela com o símbolo do Boca, quando fui a Buenos Aires, no ano passado, porque achei bonita. Mas também não digo isso ao gringo. Tento puxar outra conversa, perguntando há quanto tempo ele está no Brasil. A resposta é breve: “Três años”, e volta ao assunto que o interessa: o Boca Juniors. Insisto, perguntando se ele é de Buenos Aires. “No, soy de la provincia del Chaco, en el norte. Pero Boca es mismo el mayor, no?”, retoma o foco.
Após esse breve diálogo, o ápice. O baixinho não se faz de rogado. Abre a porta da casa, que é conjugada à oficina – na verdade a oficina é a garagem da casa – e grita, muito alto, escandalosamente, como é comum com os argentinos: “Maria, Israel, vení cá, vení cá!”. Primeiro vem Israel, o filho, de uns 15 anos. Depois, a mulher – típica mulher latino-americana: um monte de tintura no rosto e o cabelo tingido de acaju. “Maria, Israel, este es un brasilero intelichente!”, repete, me dando mais tapinhas nas costas, dessa vez mais fortes. O menino e a mulher não se entusiasmam muito, e voltam para dentro. “Ellos no son tan apaixonados como yo...”, explica, meio resignado.
Quando me despeço do baixinho, ele me reserva mais uma surpresa. “Pêra, pêra, vê esto!”, fala, novamente empolgado, me mostrando a fachada da oficina. Na verdade, não havia nada. Nenhum desenho, nenhum logotipo de alguma marca de carros, nada. Nem mesmo uma placa identificando o estabelecimento. “Olha bien!”, insiste. Quando olho mais atentamente, percebo o que ele tanto insistia para eu notar. A oficina, uma birosca na verdade, era todinha amarela e azul, as cores do Boca Juniors. Só mesmo o futebol...
* Essa história se passou de verdade comigo, no último sábado.
4.8.04
O recheio da vida
Nessa semana fui rever “Diários de Motocicleta”, no moquifento cine Luz, a módicos cinco barões (um preço mais do que justo pra um ambiente que cheira a mofo). A companhia não poderia ser mais certeira: minha mãe – não que eu goste de levar minha velha em lugares que fedem, mas como o filme só estava passando lá...
Pode-se dizer que o fato de eu assistir a esse filme, justamente a esse, ao lado da dona Marcelina foi um tanto o quanto estratégica. Estou pensando seriamente em seguir os mesmos rumos do jovem Ernestito. Como o esforço de convencimento dos velhos será um verdadeiro trabalho de Hércules, eis que Marcão, o gênio da arte de explorar os sentimentos maternos, dá esse verdadeiro golpe de mestre. Ou seja, mostra para à sua progenitora, que com tanto carinho e farinha Láctea o criou, que viajar sem rumo, sem eira nem beira, pode ser proveitoso.
Nada de bunda numa cadeira de escola ou faculdade qualquer e muito menos o fiel compromisso de buscar o pão de cada dia através do suor evaporado em horas de lavoro. Pela frente, apenas os caminhos vertiginosos das descobertas, do conhecimento, da aventura. O prazer de rodar por rodar, fazendo novas amizades, conhecendo novos horizontes e cometendo loucuras que servirão de enredos para as historinhas a serem contadas aos pequerruchos netos – se é que eles virão.
Confesso que a primeira parte do plano foi bem-sucedida. Pelo menos até agora. Minha mãe, que realmente quer que eu vá para o exterior, mas por uma causa, digamos, “mais nobre”, como para voltar a estudar – a trilogia completa: pós-graduação, mestrado e doutorado – até se empolgou com a idéia da viagem sem destino. “Você só vai se arrepender do que não fez, meu filho”, soltou ela o clichê, mas que, vindo de quem vem, tem uma relevância muito mais do que substancial para mim.
E hoje, particularmente, o capetinha que briga com o anjinho quando temos crises existenciais soprou ainda mais forte no meu ouvido. Pela primeira vez troquei algumas palavras com um senhor que pratica natação comigo. A imagem de um sujeito bem-sucedido na carreira, com seu carro importado e suas roupas de marca ficaram um tanto o quanto distante após conversarmos pela primeira vez – na verdade, só hoje fui notar seu sotaque catarinense, só para se ter idéia do tamanho do constrangedor silêncio que enchia o ar quando nos encontrávamos na academia.
Quando ouvi ele falando com um outro senhor que estava planejando ir para o Chile de carro, pensei “com esse caranga que você tem vou até à China”. Mas aos poucos a imagem poser que eu visualizava foi se evaporando. Há 25 anos atrás, muito provavelmente em algum mês de 1979 próximo do julho em que nasci, o cara estava simplesmente rodando a América do Sul de carona com dois amigos. Tal e qual Ernestito e seu amigo Alberto Granado em 1952. Mais: alguns anos depois, o sujeito partiria para a Europa de navio.
“Fui eu e um amigo a Paranaguá. Conversamos com o comandante que ficou de nos dar resposta no dia seguinte. Dois dias depois nos reencontramos e ele ‘Estava procurando vocês. Desistiram de embarcar?’ Foi o tempo de voltarmos para Curitiba, pegarmos as bagagens e embarcarmos para uma viagem de 20 dias no mar e mais um ano e meio pela Europa”. Fiquei com vontade de dizer “Puta que pariu, do caralho!”. Porém a polidez da conversa e a falta de intimidade me limitaram a um simples, porém carregado de entusiasmo e inveja positiva, “Nossa!”.
Não sei se vou mesmo partir nessa aventura. Só sei que a idéia vem me martelando há dias. E há dias bolo trajetos imaginários, ponho a cabeça no travesseiro só visualizando um risco vermelho por sobre o mapa da América do Sul, sinalizando os locais por onde passarei. Penso nos relatos que escreverei e nas fotos que vou mostrar aos amigos após o percurso. Enfim, estou refém dos meus desejos, dos meus sonhos. E, se tudo der certo, vou em frente. Pois, como disse o personagem Granado no filme, não quero ser como o velhinho que bebe café sozinho na mesa, sem ter o que e nem para quem contar sua vida vazia.
Nessa semana fui rever “Diários de Motocicleta”, no moquifento cine Luz, a módicos cinco barões (um preço mais do que justo pra um ambiente que cheira a mofo). A companhia não poderia ser mais certeira: minha mãe – não que eu goste de levar minha velha em lugares que fedem, mas como o filme só estava passando lá...
Pode-se dizer que o fato de eu assistir a esse filme, justamente a esse, ao lado da dona Marcelina foi um tanto o quanto estratégica. Estou pensando seriamente em seguir os mesmos rumos do jovem Ernestito. Como o esforço de convencimento dos velhos será um verdadeiro trabalho de Hércules, eis que Marcão, o gênio da arte de explorar os sentimentos maternos, dá esse verdadeiro golpe de mestre. Ou seja, mostra para à sua progenitora, que com tanto carinho e farinha Láctea o criou, que viajar sem rumo, sem eira nem beira, pode ser proveitoso.
Nada de bunda numa cadeira de escola ou faculdade qualquer e muito menos o fiel compromisso de buscar o pão de cada dia através do suor evaporado em horas de lavoro. Pela frente, apenas os caminhos vertiginosos das descobertas, do conhecimento, da aventura. O prazer de rodar por rodar, fazendo novas amizades, conhecendo novos horizontes e cometendo loucuras que servirão de enredos para as historinhas a serem contadas aos pequerruchos netos – se é que eles virão.
Confesso que a primeira parte do plano foi bem-sucedida. Pelo menos até agora. Minha mãe, que realmente quer que eu vá para o exterior, mas por uma causa, digamos, “mais nobre”, como para voltar a estudar – a trilogia completa: pós-graduação, mestrado e doutorado – até se empolgou com a idéia da viagem sem destino. “Você só vai se arrepender do que não fez, meu filho”, soltou ela o clichê, mas que, vindo de quem vem, tem uma relevância muito mais do que substancial para mim.
E hoje, particularmente, o capetinha que briga com o anjinho quando temos crises existenciais soprou ainda mais forte no meu ouvido. Pela primeira vez troquei algumas palavras com um senhor que pratica natação comigo. A imagem de um sujeito bem-sucedido na carreira, com seu carro importado e suas roupas de marca ficaram um tanto o quanto distante após conversarmos pela primeira vez – na verdade, só hoje fui notar seu sotaque catarinense, só para se ter idéia do tamanho do constrangedor silêncio que enchia o ar quando nos encontrávamos na academia.
Quando ouvi ele falando com um outro senhor que estava planejando ir para o Chile de carro, pensei “com esse caranga que você tem vou até à China”. Mas aos poucos a imagem poser que eu visualizava foi se evaporando. Há 25 anos atrás, muito provavelmente em algum mês de 1979 próximo do julho em que nasci, o cara estava simplesmente rodando a América do Sul de carona com dois amigos. Tal e qual Ernestito e seu amigo Alberto Granado em 1952. Mais: alguns anos depois, o sujeito partiria para a Europa de navio.
“Fui eu e um amigo a Paranaguá. Conversamos com o comandante que ficou de nos dar resposta no dia seguinte. Dois dias depois nos reencontramos e ele ‘Estava procurando vocês. Desistiram de embarcar?’ Foi o tempo de voltarmos para Curitiba, pegarmos as bagagens e embarcarmos para uma viagem de 20 dias no mar e mais um ano e meio pela Europa”. Fiquei com vontade de dizer “Puta que pariu, do caralho!”. Porém a polidez da conversa e a falta de intimidade me limitaram a um simples, porém carregado de entusiasmo e inveja positiva, “Nossa!”.
Não sei se vou mesmo partir nessa aventura. Só sei que a idéia vem me martelando há dias. E há dias bolo trajetos imaginários, ponho a cabeça no travesseiro só visualizando um risco vermelho por sobre o mapa da América do Sul, sinalizando os locais por onde passarei. Penso nos relatos que escreverei e nas fotos que vou mostrar aos amigos após o percurso. Enfim, estou refém dos meus desejos, dos meus sonhos. E, se tudo der certo, vou em frente. Pois, como disse o personagem Granado no filme, não quero ser como o velhinho que bebe café sozinho na mesa, sem ter o que e nem para quem contar sua vida vazia.
18.7.04
Três vezes basta
Dizia uma velha aldeã espanhola no clássico “Adeus às Armas”, de Ernest Hemingway, que o homem se apaixona somente três vezes em toda a sua vida. Pode ser que com 20 anos você já termine sua cota. Pode ser o contrário, que com 80, 90 ou 100 você não tenha se apaixonado nenhuma vez. Mas é certo – segundo o velho durão das letras -: de três não passa. A quarta seria um exagero, coisa supérflua, sem importância.
Eu, carregando o fardo leve de somente um quarto de século de idade a ser completado no fim do mês, não ouso deduzir se é verdade ou não. Mas, se formos um pouco pelo iluminado caminho da lógica, talvez a teoria tenha lá seu fundamento. Levando-se em conta que todo ser humano passa basicamente por três etapas de suas vidas – criança, adulto e ancião (não contemos as intermediárias, como adolescência, juventude, meia-idade, entre outras sempre chatas e insuportáveis) -, talvez realmente tenhamos o direito (ou seria o poder?) de nos apaixonarmos somente três vezes. Uma para cada fase de nossa vida. Uma pessoa diferente por vez. Ou será que a regra é válida também para quem repete o ato pela mesma pessoa? Vai saber...
PS: vamos lá, seus filhos da puta, digam que o Marcão virou um boiola de marca maior e tirem sarro da minha cara no boteco! heheheh
14.7.04
“Foda-se”, o som dos fortes
Nos tempos de miséria no oceano perdulário da Pontifícia Universidade Católica, eu e o lendário e inigualável Marco Sanchotene, vulgo Marcolino Jacaré, meu calouro no curso-engana-trouxa-caça-níquel de jornalismo e futuro companheiro de aventuras mal-sucedidas no campo musical, havíamos formulado uma teoria. A “Teoria do Foda-se” – isso mesmo, com letras maiúsculas e aspada, como toda grande teoria que revoluciona o mundo exige.
Dizíamos nós, pensadores de grande valor, depois de consumidas algumas Brahmas a R$ 1 desviadas do freezer do bar Dartagnan – vale lembrar que o dono do estabelecimento era pai de outro calouro de grande estima, mas ultimamente sumido, Amatuzzi – que as pessoas eram tristes e cabisbaixas, além de estressadas, porque não incluíam a linda manifestação do “Foda-se” em seu dia-a-dia. Enfim, toda a tristeza do universo estava simplificada frente ao silêncio, à mudez diante do “Foda-se”, o som dos fortes.
Só quem tem muita personalidade diz “Foda-se” com boca cheia e mente aliviada. É coisa para profissional. Não é dizer foda-se para a namorada quando você quer dar o golpe nela e ir para o futebol com os amigos. Isso é amadorismo, faixa-branca total e, dependendo da namorada, burrice das grandes. Qualquer um faz. O “Foda-se” verdadeiro, espontâneo e desafiador, tem contradizer toda uma rede de argumentos enraizada e padronizada imposta seja pelo raio-que-o-parta de quem seja – especialmente gente certinha e bitolada, que sempre quer dar lições de moral para tudo ou que quer mostrar o quanto esse mundo de merda é bonito e jeitoso, com sua natureza, os pássaros, as árvores...(“Foda-se” tudo isso!!).
Por exemplo, um professor incompetente da faculdade pede um trabalho idiota sobre um tema imbecil. Os politicamente corretos cumprirão sua função monolítica de servos dos padrões estabelecidos e se sujeitarão à ordem hierárquica, mesmo sendo o professor um cretino, uma besta com direito à certificado. Já os sábios seguirão à risca os preceitos emitidos pelo estatuto de uma única palavra: o todo e poderoso “Foda-se”. Mas isso tem que ser dito na cara do sujeito, pois, como o bom e velho róque, o embalo da juventude (plagiando o camarada André Pugliesi, vulgo Jornalista de Merda), atitude conta bastante. Eis aí um “Foda-se” legítimo, digno de placa e a ser apresentado em palestras.
Escrevo tudo isso pelo simples motivo de que, ainda nessa semana, terei a honra de dizer um “Foda-se” muito bem dito, muito bem salivado e digerido. E, melhor ainda, como forma de vingança – vale lembrar que a vingança não só é um prato que se come cru, como também um ingrediente forte na composição do “Foda-se”. Resumindo, a vingança é a pimenta ardida do “Foda-se”, daquelas de arruinar a vida de pessoas cujos esfíncteres apresentam dilatações dos vasos sangüíneos.
Para encurtar, nos próximos dias estarei mais feliz. Podem acreditar, estarei com um sorriso muito do vistoso no rosto ainda essa semana. “Foda-se”!
OBS: esse texto é em homenagem ao grande e mitológico Marceleto, um dos “Foda-se” mais originais que conheci. Força, cara!
Nos tempos de miséria no oceano perdulário da Pontifícia Universidade Católica, eu e o lendário e inigualável Marco Sanchotene, vulgo Marcolino Jacaré, meu calouro no curso-engana-trouxa-caça-níquel de jornalismo e futuro companheiro de aventuras mal-sucedidas no campo musical, havíamos formulado uma teoria. A “Teoria do Foda-se” – isso mesmo, com letras maiúsculas e aspada, como toda grande teoria que revoluciona o mundo exige.
Dizíamos nós, pensadores de grande valor, depois de consumidas algumas Brahmas a R$ 1 desviadas do freezer do bar Dartagnan – vale lembrar que o dono do estabelecimento era pai de outro calouro de grande estima, mas ultimamente sumido, Amatuzzi – que as pessoas eram tristes e cabisbaixas, além de estressadas, porque não incluíam a linda manifestação do “Foda-se” em seu dia-a-dia. Enfim, toda a tristeza do universo estava simplificada frente ao silêncio, à mudez diante do “Foda-se”, o som dos fortes.
Só quem tem muita personalidade diz “Foda-se” com boca cheia e mente aliviada. É coisa para profissional. Não é dizer foda-se para a namorada quando você quer dar o golpe nela e ir para o futebol com os amigos. Isso é amadorismo, faixa-branca total e, dependendo da namorada, burrice das grandes. Qualquer um faz. O “Foda-se” verdadeiro, espontâneo e desafiador, tem contradizer toda uma rede de argumentos enraizada e padronizada imposta seja pelo raio-que-o-parta de quem seja – especialmente gente certinha e bitolada, que sempre quer dar lições de moral para tudo ou que quer mostrar o quanto esse mundo de merda é bonito e jeitoso, com sua natureza, os pássaros, as árvores...(“Foda-se” tudo isso!!).
Por exemplo, um professor incompetente da faculdade pede um trabalho idiota sobre um tema imbecil. Os politicamente corretos cumprirão sua função monolítica de servos dos padrões estabelecidos e se sujeitarão à ordem hierárquica, mesmo sendo o professor um cretino, uma besta com direito à certificado. Já os sábios seguirão à risca os preceitos emitidos pelo estatuto de uma única palavra: o todo e poderoso “Foda-se”. Mas isso tem que ser dito na cara do sujeito, pois, como o bom e velho róque, o embalo da juventude (plagiando o camarada André Pugliesi, vulgo Jornalista de Merda), atitude conta bastante. Eis aí um “Foda-se” legítimo, digno de placa e a ser apresentado em palestras.
Escrevo tudo isso pelo simples motivo de que, ainda nessa semana, terei a honra de dizer um “Foda-se” muito bem dito, muito bem salivado e digerido. E, melhor ainda, como forma de vingança – vale lembrar que a vingança não só é um prato que se come cru, como também um ingrediente forte na composição do “Foda-se”. Resumindo, a vingança é a pimenta ardida do “Foda-se”, daquelas de arruinar a vida de pessoas cujos esfíncteres apresentam dilatações dos vasos sangüíneos.
Para encurtar, nos próximos dias estarei mais feliz. Podem acreditar, estarei com um sorriso muito do vistoso no rosto ainda essa semana. “Foda-se”!
OBS: esse texto é em homenagem ao grande e mitológico Marceleto, um dos “Foda-se” mais originais que conheci. Força, cara!
21.6.04
Questão de método
Ando puto com as coisas. Novidade? Dessa vez é diferente. Não estou puto com as coisas em si. Estou muito puto comigo mesmo. Na realidade, de como a minha cabeça anda processando as coisas muito mais rápidas do que meu corpo.
Nunca concordei muito com o que meus amigos me diziam, de que era um viciado em trabalho, um obcecado, enfim, típico workhollic - só não pensem que por causa disso estou milionário. Por sinal, é justamente por não estar (ainda!) milionário que eu trabalho feito um camelo. O que pintar, faço – dentro de minha área, é lógico. Com isso, várias coisas vão ficando para trás.
Há anos tenho me sentindo insensível a tudo. Assim como não consigo mais dar uma risada original, também não me entristece mais ver as coisas erradas. Fico impassível. Assim como quando eu recebo uma palavra de elogio não sinto nenhum dos meus pêlos se arrepiar e nem o meu pulso disparar, como acontecia antigamente, também não fico com nenhum remorso de ver pessoas necessitadas. Realmente há algo de estranho comigo.
Mas parece que agora as coisas estão tomando outras formas. Meu corpo, com apenas 25 anos a serem completados no mês que vem, não consegue acompanhar o ritmo da minha cabeça, de minhas vontades, de meus ideais, anseios e sonhos. Uma merda.
Isso tem me preocupado. Há tempos tenho tido sinais de que minha saúde realmente não anda lá essas coisas. Agora já não posso mais esconder, graças às hemorragias que deixam marcas na fronha do meu travesseiro. Enquanto a coisa se passava só dentro da minha cabeça, tudo bem. O problema era só meu, eu sabia contorná-lo. Entretanto, agora, além da minha, tenho que enfrentar a preocupação de outros. Tudo por causa de um simples (?) e constante sangramento nasal, além de umas dores fortes de cabeça e náuseas inexplicáveis.
Essa semana vou fazer mais alguns exames. Com certeza vou ter que ouvir toda aquela ladainha de volta, de que preciso perder peso, dormir regularmente, fazer exercícios, controlar a alimentação, ir mais ao médico, tomar os remédios nos horários certos, me divertir mais, deixar de lado o álcool e o cafezinho, etc e tal. Enfim, toda aquela chatice típica dos consultórios médicos. Mas a receita certa ninguém me dá: como ganhar dinheiro de uma maneira justa, sem se desgastar?
Ando puto com as coisas. Novidade? Dessa vez é diferente. Não estou puto com as coisas em si. Estou muito puto comigo mesmo. Na realidade, de como a minha cabeça anda processando as coisas muito mais rápidas do que meu corpo.
Nunca concordei muito com o que meus amigos me diziam, de que era um viciado em trabalho, um obcecado, enfim, típico workhollic - só não pensem que por causa disso estou milionário. Por sinal, é justamente por não estar (ainda!) milionário que eu trabalho feito um camelo. O que pintar, faço – dentro de minha área, é lógico. Com isso, várias coisas vão ficando para trás.
Há anos tenho me sentindo insensível a tudo. Assim como não consigo mais dar uma risada original, também não me entristece mais ver as coisas erradas. Fico impassível. Assim como quando eu recebo uma palavra de elogio não sinto nenhum dos meus pêlos se arrepiar e nem o meu pulso disparar, como acontecia antigamente, também não fico com nenhum remorso de ver pessoas necessitadas. Realmente há algo de estranho comigo.
Mas parece que agora as coisas estão tomando outras formas. Meu corpo, com apenas 25 anos a serem completados no mês que vem, não consegue acompanhar o ritmo da minha cabeça, de minhas vontades, de meus ideais, anseios e sonhos. Uma merda.
Isso tem me preocupado. Há tempos tenho tido sinais de que minha saúde realmente não anda lá essas coisas. Agora já não posso mais esconder, graças às hemorragias que deixam marcas na fronha do meu travesseiro. Enquanto a coisa se passava só dentro da minha cabeça, tudo bem. O problema era só meu, eu sabia contorná-lo. Entretanto, agora, além da minha, tenho que enfrentar a preocupação de outros. Tudo por causa de um simples (?) e constante sangramento nasal, além de umas dores fortes de cabeça e náuseas inexplicáveis.
Essa semana vou fazer mais alguns exames. Com certeza vou ter que ouvir toda aquela ladainha de volta, de que preciso perder peso, dormir regularmente, fazer exercícios, controlar a alimentação, ir mais ao médico, tomar os remédios nos horários certos, me divertir mais, deixar de lado o álcool e o cafezinho, etc e tal. Enfim, toda aquela chatice típica dos consultórios médicos. Mas a receita certa ninguém me dá: como ganhar dinheiro de uma maneira justa, sem se desgastar?
30.3.04
Brasil e Corinthians, realidades iguais
A figura de Lula no poder se aproxima cada vez mais da de Dom Quixote. Somente o presidente, com sua visão turvada, para ver os moinhos de vento de otimismo que ele tanto insiste em dizer que existem. Negar crise diante do rombo que o caso Waldomiro Diniz gerou, diante dos altos níveis de desemprego, diante da insegurança por que passa a população e diante de tantos outros fatos é o mesmo que dizer que as cores do Corinthians não são o preto e o branco – adotando o elemento que o presidente mais gosta de usar em suas metáforas estapafúrdias sobre a situação do país, o seu próprio time do coração.
Entretanto, tal qual o Coringão de Lula, o Brasil vai sim de mau a pior. Assim como o clube de Parque São Jorge, muito se fala, pouco se age. O discurso vazio de que as coisas vão melhorar de nada adianta se não forem apresentadas propostas de possíveis soluções. E isso o governo federal pouco vem fazendo.
A única certeza que temos é de que pelo menos num ponto o presidente pôs os pés no chão e já não se considera mais Deus, como declarou nessa semana em São Caetano do Sul (SP). Mas se Lula se convenceu de que é não é o Todo Poderoso, por que nada de novo surgiu, nenhuma esperança vaga? Pois se a ajuda divina é sempre o último recurso dos crédulos, o fato de Lula dizer que não é Deus deveria ser um indício de que as coisas estão se encaminhando concretamente. Pena que ainda não encontraram os trilhos desse trem chamado esperança – ou tudo isso seria simplesmente um otimismo barato?
Com suas ações pouco sólidas, o governo do PT mancha intensivamente sua imagem. Pesquisa feita pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) demonstra que a aprovação pessoal do presidente Lula caiu 5,7%, enquanto a do governo federal baixou 5,3%. Portanto, algo de errado há, inegavelmente.
Tanto há que até aqueles que outrora apoiavam o PT incondicionalmente começam a virar as costas. Primeiro foram os servidores públicos, descontentes com a política voltada ao setor. Depois, o MST, que não só se manifestou verbalmente como iniciará uma série de invasões que prometem piorar ainda mais o já caótico cenário nacional. A bola da vez são os estudantes, que iniciarão essa semana uma série de manifestações em várias cidades contra a política social do PT.
Passou da hora do presidente Lula descer do palanque e começar a pôr as coisas no seu devido lugar. Até porque, ele não está mais dirigindo um sindicato, onde as bravatas têm um peso enorme. O povão não gosta de saliva gasta em discursos inócuos. Prefere o suor decorrente do trabalho, das mãos à obra. E até agora, poucas gorduras foram cortadas do organismo da união.
A figura de Lula no poder se aproxima cada vez mais da de Dom Quixote. Somente o presidente, com sua visão turvada, para ver os moinhos de vento de otimismo que ele tanto insiste em dizer que existem. Negar crise diante do rombo que o caso Waldomiro Diniz gerou, diante dos altos níveis de desemprego, diante da insegurança por que passa a população e diante de tantos outros fatos é o mesmo que dizer que as cores do Corinthians não são o preto e o branco – adotando o elemento que o presidente mais gosta de usar em suas metáforas estapafúrdias sobre a situação do país, o seu próprio time do coração.
Entretanto, tal qual o Coringão de Lula, o Brasil vai sim de mau a pior. Assim como o clube de Parque São Jorge, muito se fala, pouco se age. O discurso vazio de que as coisas vão melhorar de nada adianta se não forem apresentadas propostas de possíveis soluções. E isso o governo federal pouco vem fazendo.
A única certeza que temos é de que pelo menos num ponto o presidente pôs os pés no chão e já não se considera mais Deus, como declarou nessa semana em São Caetano do Sul (SP). Mas se Lula se convenceu de que é não é o Todo Poderoso, por que nada de novo surgiu, nenhuma esperança vaga? Pois se a ajuda divina é sempre o último recurso dos crédulos, o fato de Lula dizer que não é Deus deveria ser um indício de que as coisas estão se encaminhando concretamente. Pena que ainda não encontraram os trilhos desse trem chamado esperança – ou tudo isso seria simplesmente um otimismo barato?
Com suas ações pouco sólidas, o governo do PT mancha intensivamente sua imagem. Pesquisa feita pela Confederação Nacional dos Transportes (CNT) demonstra que a aprovação pessoal do presidente Lula caiu 5,7%, enquanto a do governo federal baixou 5,3%. Portanto, algo de errado há, inegavelmente.
Tanto há que até aqueles que outrora apoiavam o PT incondicionalmente começam a virar as costas. Primeiro foram os servidores públicos, descontentes com a política voltada ao setor. Depois, o MST, que não só se manifestou verbalmente como iniciará uma série de invasões que prometem piorar ainda mais o já caótico cenário nacional. A bola da vez são os estudantes, que iniciarão essa semana uma série de manifestações em várias cidades contra a política social do PT.
Passou da hora do presidente Lula descer do palanque e começar a pôr as coisas no seu devido lugar. Até porque, ele não está mais dirigindo um sindicato, onde as bravatas têm um peso enorme. O povão não gosta de saliva gasta em discursos inócuos. Prefere o suor decorrente do trabalho, das mãos à obra. E até agora, poucas gorduras foram cortadas do organismo da união.